quinta-feira, 17 de novembro de 2016

As Penélopes Charmosas



   Criada no início dos anos 1970 para o seriado animado "Corrida Maluca", a corredora durona de modos delicados fez tamanho sucesso, que ganhou sua própria série, levando junto a Esquadrilha da Morte, em desenhos ambientados nos anos 1920/1930, como uma sátira adocicada aos filmes mudos. Naquela época, ainda havia muita gente que se lembrava dos anos loucos, por isso filmes retratando as duas décadas proliferaram como poucos.


    Com o tempo e o azedume, a personagem ganhou a pecha de machista, por sempre pedir para ser salva, ignorando os detratores que estar amarrada a um tronco a caminha de uma serra afiada, não é exactamente uma situação em que se possa dispensar ajuda. Ignoram também que ela geralmente conseguia se safar sozinha, às vezes até salvando os seus socorristas.


    Bem, o antigomobilista não se esqueceu dessa bravura e boa disposição. Penélope Charmosa passou a ser o apelido das mulheres que acompanhavam seus pares em encontros, passeios e ralis de carros antigos. Elas sabiam onde estavam se enfiando, afinal são carros com no mínimo trinta anos de uso, alguns com mais se setenta, ter de descer e ajudar a fazer um reparo pelo uso severo e prolongado não está fora do cronograma.


    Algumas, sem medo do preconceito que ronda quem vive a própria vida à sua maneira, com o tempo passaram a se vestir de rosa, algumas se caracterizando como Penélope, outras simplesmente usando roupas fofas e delicadas para encarnar a idéia da brincadeira, que muita gente leva à serio. Algumas já são celebridades em seus clubes, como estas moças aqui.


    Não demorou também para que essas Penélopes passassem a conduzir em vez de serem apenas conduzidas, preferencialmente conversíveis, porque afinal de contas, é este o espírito da personagem. Uma mulher livre, poderosa e que não deve satisfações a ninguém. Aos poucos, nos eventos mais tradicionais, tornaram-se parte das exposições, com trajes de época, fiéis ou estilizados, enriquecendo um tipo de evento que por si já é um entretenimento muito rico.


    As modelos mais curvilíneas, desdenhadas pela moda oficial, viram o nicho e hoje algumas se especializaram no tema. pois sim, quem vive à própria maneira não beneficia só a si, espalha o benefício ao seu redor e até gera empregos dignos. Há os que chamam garotas muito delicadas e de aspecto frágil de "Penélope Charmosa", com o intuito de constranger. Para quem se assume vintagista, queridas, é como chamar um corintiano de gambático e pensar que ofende. Dita Von Teese é provavelmente a mais famosa e glamorosa antigomobilista da actualidade, é uma Penélope assumida! Quer exemplo melhor?


    E vocês? Já soltaram a Penélope hoje?

Ver ensaios aqui, aqui, aqui e aqui.

sábado, 5 de novembro de 2016

A amnésia coletiva, a falta de compartilhamentos

 
Avenida 24 de Outubro, Setor Campinas, anos 1970.
Não é novo o bordão de que o brasileiro é um povo sem memória. Por exemplo, um artista pode fazer o maior sucesso em várias novelas consecutivas, se ele sair da mídia por um anos, corre o risco de nem ser reconhecido pelas ruas. Lembra-se mais de Jodie Foster do que de Rosana Garcia, que foi uma menina prodígio de nossa pérfida televisão, afinal os americanos não deixam suas estrelas se apagarem com tanta facilidade. Antes de culpar a mídia por isso, vamos deixar alguns detalhes claros. Sim é um puxão de orelhas de quem está fazendo o serviço quase sozinho, com poucos e esparsos abnegados pelo país, que simplesmente não conseguem trabalhar realmente juntos.

Praça Joaquim Lúcio, Setor Campinas, Goiânia, anos 1930.

    Vocês já tentaram, sem apelar aos arquivos dos jornais digitais, encontrar uma photo de Agosto de 1952 de Araraquara? Uma imagem que seja de Rio Verde, Goiás, dos anos 1950? Seja qual for sua cidade, provavelmente terão dificuldades em encontrar registros de ano a ano, porque a maioria simplesmente não preserva, e quem os tem não costuma dividir. Vão tentar? Ok, esperarei um pouco. Enquanto isso verei um vídeo. Os que sabem que não vão conseguir muita coisa, por já terem tentado e chorado pela pobreza de nossa mentalidade, podem ficar por aqui e assistir também.



Marcia Hill at Fort Collins High School, c. 1930
    Conseguiram? Poucos, eu sei. E esses poucos conseguiram bem pouca coisa, mas conseguiram mais do que eu esperava. Por que não temos um acervo rico do interior do país? Mesmo as capitais de Estados do Norte e Nordeste não oferecem o que se poderia esperar. Aliás, é preciso digitar "Roraima anos 60" para conseguir ver alguma coisa entre os anos 1960 e 1980, genericamente distribuído. Mesmo do Setor Coimbra, aqui em Goiânia, por exemplo, eu encontrei quase que exclusivamente anúncios imobiliários, mesmo tentando refinar a pesquisa com "Setor Coimbra praça Walter Santos anos 60". Foi fácil encontrar imagens antigas de Fort Collins, uma cidade no Colorado que o resto do mundo praticamente desconhece... Até agora. Na verdade até cidades castigadas do Nordeste brasileiro têm mais registros na internet do que as capitais do Centro-Oeste. Vergonhoso, eu sei, mas não é só para o poder público, como veremos mais adiante..

    E estou falando de uma região muito próxima a São Paulo, que é o Estado que mais guarda e compartilha seus registros de época! É possível ter, praticamente, imagens de cada dia da capital desde os anos 1950. Não é exagero, a riqueza e vastidão do acervo que encontrei, sem precisar recorrer aos arquivos de jornais, rivaliza com as maiores metrópoles do mundo! E tenham certezas de que há muito mais coisas guardadas em acervos pessoais, ainda não revelados. E mesmo essa proximidade não poupou Goiânia do vexame virtual. O goianiense tem seu acervo em casa, mas não o compartilha. Ver a história sem as amarras da mentalidade do autor de um livro didático, é de uma importância imensa, ajuda a formar pensamento realmente crítico sem lentes alheias, falarei a respeito logo a seguir, só um minuto.
Primeira Igreja Matriz de Campinas

    Certo, agora vem a bronca. O que diferencia os outros povos de nós neste quesito, basicamente, é que seus indivíduos se enxergam como parte de um povo. Eles não têm na maioria das dezes, vergonha em dizer que nasceram e foram criados em cidadelas minúsculas de um Estado pobre do rincão mais interiorano do país. Aqui nós temos dificuldades até para encontrar photos dos anos 1970 de instituições de capitais!
Colégio Santa Clara, Campinas, anos 1930.

    Desde que inventaram o hipertexto e a internet ficou rápida o bastante, americanos e europeus se apressaram em fazer e publicar registros de suas comunidades, na maioria das vezes com recortes de jornais locais praticamente desconhecidos, bem como com arquivos de família. A quantidade de blogs que surgiram do meio dos anos 1990 até meados dos anos 2000, com temática familiar e de registro local, é enorme! Escolas viram na rede um meio rápido e eficaz de se comunicar com ex-alunos e servidores aposentados, e quase sempre têm respostas rápidas deles e de suas famílias. Lá fora existe essa mentalidade de agregação do grupo, para isso apelam para as boas memórias, que são facilmente avivadas por fotos, artigos e vídeos de época.
Copacabana Palace Hotel. Anos 1940.

    No Brasil eu não precisaria, mas vou esmiuçar para ver se vocês nos ajudam nesta tarefa ingrata. Praticamente nenhum colégio tem fotos relevantes na internet. Salvo os caros e tradicionais, como os Colégios Marista e Santa Clara, eles não querem nem saber das pestinhas que alvejaram precocemente seus cabelos há vinte ou trinta anos. Salvas as devidas proporções, absolutamente todos os professores do mundo, especialmente os que lidam com crianças maiores e adolescentes, têm ataques de nervos em algum momento de sua carreira acadêmica, mas mesmo assim eles fazem questão de ter e guardar registros dos capetas, digo, dos alunos que passaram por suas mãos. E eu me refiro com certa mágoa ao finado ETFG, que por egos inflados de ideólogos idiotas, tornou-se praticamente uma faculdade, mal tendo estrutura para ser uma escola técnica, e teve alguns cenários ORIGINAIS dos anos 1960 destruídos em nome dessa mentalidade estúpida.
Antiga Escola Técnica Federal de Goiás, anos 1980. A bela praça com chafariz e jardim foi transformada em estacionamento.

    Eu percebi que o Brasil foi sim um país promissor, que mesmo sob ditaduras ele respirou um pouco de ares de esperança e confiança no futuro. Houve época, por exemplo, que Goiânia tinha corridas de rua, no estilo dos grandes prêmios de Mônaco, com carros, motos e motonetas aliviados e envenenados rasgando as ruas ainda lisas e bem conservadas do centro da cidade. Praticamente todas as capitais já tiveram corridas públicas de rua, algumas mesmo quando já tinham autódromos para corridas da federação. Acontece que o automobilismo é o tipo de entretenimento que demanda um pouco de raciocínio e técnica, obriga as pessoas a ligarem causa e conseqüência, o que é particularmente perigoso para corruptos.
Rua do Rio de Janeiro, anos 1960

    Campinas, o bairro onde moro há mais de vinte anos, chegou a ter três salas de cinema. Quase nenhum dos moradores que chegaram nos últimos vinte anos sabe disso. Eles viraram lojas de tecidos e igrejas evangélicas. Quem quer ver um filme, hoje, está praticamente obrigado a entrar em shopping centers. Não é todo mundo que se sente à vontade nesses lugares, ao contrário do que a mídia alardeia. Nem todos gostam do ambiente artificial e isolado que eles oferecem, inclusive eu.
Dirce Maria Schroeder, 1940s

    Aliás, destruir a história é uma tradição muito arraigada, não só no poder público, mas também no seio da população em geral. Os países que têm grandes e ricos registros históricos na rede, são aqueles em que sua população se adiantou em disponibilizar photos de família, registros de eventos locais, de acontecimentos da comunidade e até lutos de suas cidades. Não foram os governos que se esforçaram, nos primórdios da internet, em disseminar a história de seus cidadãos, foram estes. Conhecendo um pouco da vida e dos hábitos de uma comunidade, se conhecem também o caráter e a mentalidade que ela alimenta.

    Não é só para historiadores que esses arquivos têm importância, para o público em geral é um modo de compreender que aquelas pessoas, naquela época e naquele contexto, não eram os monstros que muita gente faz parecer. Foram aquelas pessoas que fizeram, bem ou mal, o que temos disponível hoje. Não foi um Estado, não foi um herói, não foi uma celebridade. O que existe hoje, foi feito por pessoas comuns, cujos arquivos estão quase todos guardados em acervos pessoais, talvez sendo carcomidos por traças e corroídos por ambientes agressivos, como cômodos abandonados e repletos de umidade e odores fortes, ou ainda em oficinas esquecidas, mas ainda com muitos solventes exalando seus vapores e digerindo photos de época. Talvez estejam até bem perto de nossas casas, mas não nos damos conta, talvez nem os moradores dos locais tenham consciência ou mesmo consideração.
Rosana Garcia, anos 1970 e hoje.

    Qual a importância para o cidadão comum e anônimo de se compreender as pessoas da época? Em primeiro lugar essas pessoas são nossos ancestrais, mesmo que alguns não gostem dos seus. Acreditar na conversa simplista de gente revoltada com as tradições e a sociedade, nos faria acreditar que descendemos de criaturas puramente malignas, e que temos culpa pelo que elas fizeram, ou teriam feito. Tens provas de que aquelas pessoas específicas foram monstros do espaço sideral? Não, não tens, então não acredite que tu és um monstro que deve ser culpado e escravizado pelos erros de uma época. Renegar o passado não o retifica.
Rua 20, Goiânia, anos 1930.

    Em segundo lugar, a compreensão sem preconceitos de que se alardeia isento deles nos faz compreender as reais motivações que gente comum teve para cometer ou evitar os erros que ecoam até hoje. Eu compreendi que a maioria absoluta das pessoas erra tentando acertar. O passado bonito e promissor que nós vintagistas adoramos, simplesmente não teria existido se metade do que falam de mal fosse verdade. A Psique humana não permitiria isso! Vejam vem as photos dos anos 1940 e vão perceber uma espontaneidade, mesmo em alguns eventos solenes, que a maioria das selfies simplesmente não tem.
O Cine Ipanema, Rua Visconde de Pirajá, Praça Gal. Osório. 1934

    Em terceiro e último, mas não menos importante, porque a compreensão daquelas pessoas dilui o ódio. Passamos a desvincular a pessoa de sua obra, o cidadão de seu governo e os costumes de época das reais intenções. Sabem aquela conversa de eleger um inimigo e proteger quem lutou contra ele, mesmo que seja o pior canalha possível? Desaparece. Estudar imagens de época, ver expressões e analisa-las com carinho, nos tira erros de tradução interpretativa, vemos mais medo do que raiva no cenho franzido de uma mãe furiosa com seus rebentos, mais preocupação do que ódio na face enrugada de um senhor apreensivo, mais defesa do que ataque na reação de um público manipulado pelo real mal intencionado.

    O bônus para quem tem acesso e leva à sério o estudo de um lugar, é muito grande! Quem se debruça sobre os arredores do Lago das Rosas, por exemplo, procura conhecer os moradores antigos, ver registros, filmes de época, músicas que faziam sucesso então, a alimentação, os productos e bens de consumo mais comuns, os carros que circulavam na área e as principais notícias do período, pode sem medo dizer que viveu a época, mesmo sem ter vivido na época. Porque simplesmente experimentou o suficiente dela para falar como se fosse um antigo morador de lá.

Goiânia, Estação Ferroviária, 1957

    Eu ainda me lembro quando havia uma linha de trem que cortava Goiânia ao meio, ela passava justo onde hoje existe um condomínio residencial, chegava à estação ferroviária e saía pelos extremos da cidade. De vez em quando eu via, quando ia para o centro da cidade, as locomotivas com sons de FNM puxando longas composições, passando por viadutos sobre algumas ruas e fechando as que estavam no mesmo nível. Mas tudo isso são memórias minhas e, como já reclamei, tem quase nada de registros para eu mostrar; pelo menos por enquanto.

domingo, 23 de outubro de 2016

Uma festa anos setenta

    Ontem foi dia de embalos de sábado no horário de verão; a noite só chegou por volta das 20h. O evento temático aconteceu novamente no parceiro Luiz Café Conceito, que não só cedeu o espaço e a música, como colocou todo o seu pessoal vestido a caráter, com os figurinos abrangendo de 1969 até 1979. Não bastasse o cenário bucólico retrô do café, eles simplesmente entraram na idéia de corpo e alma.

    O início foi devagar, até as 18h pouca gente apareceu, mas isso já era esperado. O dia estava, como hoje, quente e abafado, agravado pelo horário de verão, que prolongou a agonia de sermos cozidos vivos. Mas vejam só, gente que deu bolo nas últimas vezes, apareceu! Tivemos um problema com feriado prolongado e vários eventos simultâneos pela cidade, muitos já tinham se comprometido com eles. A farra de periquitos, maritacas, araras e algumas garças, ajudou a passar o tempo e complementou as conversas.

    O que atenuava o calor, enquanto falávamos da onda estúpida de edifícios de fachada espelhada, era justamente a fachada retrô, com revestimento e deck de madeira, tudo com espaço para o ar circular. O tempo estava quente, mas poderia ser pior. Ser retrô é ter bom senso, mesmo com os exageros.

    Mesmo assim havia mais gente no lado de dentro, refrigerado, conversando e consumindo lá mesmo a esperar pelo momento de sair sem que o sol tostasse suas peles. Suar e estragar o figurino era um temor grave o suficiente, preferiram não arriscar e usufruir do ambiente rústico e sofisticado até poderem sair.

    O bom foi ver que estavam todos absolutamente à vontade em seus figurinos, como se aquela fosse sua roupa cotidiana. Não preciso dizer que eles ficavam melhor caracterizados de anos setenta, pelo menos o frescor das roupas da época e a personalidade própria estavam escancaradas. Não era encenação, estavam realmente bem e à vontade naquelas roupas. Deveriam adoptar o visual para uso cotidiano. Todo mundo deveria viver do seu jeito e exigir respeito.

    Conforme o dia findava e o calor cedia, o lugar começou a encher, alguns com trajes setentistas, especialmente as moças. Os rapazes estavam muito, mas muito tímidos! Um Opala Comodoro coupé, um Landau, uma Harley Davidson e uma motocicleta BMW dos anos cinqüenta ajudaram a formar o clima.

    Havia uma mesinha com um telephone de baquelite preta e uma vitrola Philips portátil, ao redor deles alguns jovens se perguntando o que seria aquilo e nós, vintage pela história que trazemos, explicamos que nem sempre se pôde carregar milhares de músicas em um dispositivo do tamanho de uma unha... Ele nem existiam nas cabeças dos autores de ficção científica! Mas também não havia o rito de tirar a agulha, virar o disco e recolocar a agulha, que por banal que pareça, faz a pessoa se envolver no que está fazendo e usufruir melhor do que ouve.

    Uma vez a temperatura amena e o clima agradável, o café se encheu rapidamente, parecia brotar clientes do chão, inclusive alguns que pareciam não saber da empreitada em andamento, vendo-se servidos por hippies da era psicodélica e pagando a uma caixa que aprecia ter saído do seriado As Panteras; Foi um bônus para suas noites. E veio a hora do som, só com músicas dançantes, começando com Tina Charles. E veio a hora de cumprir com minha promessa, deixar a timidez de lado e ir dançar. Qual foi a minha surpresa diante da timidez generalizada! De início alguns até tentaram, eu chamava as pessoas, mas logo me vi sozinho na pista. Bem, fiz minha parte, da próxima vez vou cobrar a participação.

    O ambiente discoteque não era aquela cafonice ensurdecedora que é moda nos sons automotivos, as pessoas conseguiam conversar sem dificuldades, alguns se lembrando da época e alguns se perguntando que bandas seriam aquelas, enquanto flocos de luz colorida percorriam a área externa e o globo de vidro cintilava. Os comensais estavam contentes, alguns comentaram minha performance, mas ainda ficaram devendo a participação... E eu sou muito tímido! Sério! Os galãs conquistadores é que fizeram cosplay de dois de paus!

    Foi tudo muito simples, tocado quase que exclusivamente com a vontade dos envolvidos de fazer uma boa noite, com a estrutura já existente incrementada por jogo de luzes e uma caixa de som, mas valeu à pena! Valeu tanto que temos mais em mente, Aguardem! E por favor, desta vez não me deixem dançando sozinho!

Para verem o álbum que fiz, é só clicarem aqui.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Cobogó



 
Fonte: http://casaeconstrucao.org/materiais/cobogo/

Imaginem uma parede com furos estilizados, que formariam padrões abstratos, geométricos e silvestres, não só dando um ar mai sofisticado ao ambiente, mas também permitindo a difícil equação entre boa ventilação e controle da incidência de luz. Se isso lhes parece ser uma inovação recente de algum hipongo ambientalista utópico moderno do século XXI, enganou-se. Enganou-se por quase cem anos, para ser preciso.
 
Fonte: http://casaeconstrucao.org/materiais/cobogo/

Nos loucos anos 1920, moradores de recife criaram os elementos vazados, que levou como nome as iniciais dos nomes de cada um deles. Foram eles o comerciante português Amadeu Oliveira Coimbra, o alemão Ernesto August Boeckmann e o brasileiro Antônio de is, que deram à solidez do tijolo a leveza que inspirou arquitetos até fins dos anos 1960. A inspiração veio do muxarabi (Mashrabiya) das sacadas de países árabes, que permitiam aos moradors verem o movimento sem serem vistos, pensado para as mulheres não serem vistas pelos transeuntes. Lúcio Costa se encarregou de difundir a idéia. A patente é de 1929. Brasília é particularmente rica em cobogós, por causa das arquiteturas modernistas, mas nem todas oscarianas.



Inicialmente apenas tijolos vazados, os cobogós ganharam outros materiais em sua formação, os mais caros e refinados são de cerâmica vitrificava, com motivos altamente sofisticados, usados principalmente para separação de ambientes internos. Com a variedade de materiais possíveis e a quase infinita possibilidade de arquitetura interna do elemento, um cobogó pode ser utilizado virtualmente em qualquer situação e não só como parede vazada, mas também como balcão de cozinha ou bar, mureta de deck de piscina, sacadas, suportes de banco de praças e jardins, enfim, é uma das idéias antigas mais úteis e versáteis de todos os tempos. Estruturais ou decorativos, eles deveriam ser padrão na construção civil nacional.

Uma utilidade é permitir que uma pessoa veja quem está lá fora sem ser vista, por conta do eficaz controle de iluminação. Eu estudei em escolas que tinham seus corredores abertos, mas em frente às portas das salas de aula havia paredes de cobogós de cerâmica rústica, como as dos tijolos furados. A ventilação era muito boa e o sol da tarde não incomodava. Vocês que moram em regiões bem ventiladas, não imaginam o quanto isso é precioso em um Estado de clima abafado e quente como Goiás.



A vantagem visual do cobogó é dar a impressão de que o prédio não foi construído, mas cresceu e continua crescendo no lote, por conta da aparência orgânica que os veios visuais de seus desenhos oferece. O prédio parece estar vivo, compreendem? Algo como se a pessoa entrasse em um filme de ficção científica dos anos 1950. Claro que lavar aquilo dá trabalho, especialmente em regiões como a minha, onde a poeira do agronegócio e a fuligem urbana se misturam, mas não é um bicho de sete cabeças.

O único risco é as crianças começarem a escalar os elementos, e elas vão fazê-lo ao menor descuido dos pais. Então já sabem que a beleza vintage desses elementos arquitetônicos tem suas armadilhas. Mas se não for os cobogós, será a mesa, o armário da cozinha, uma árvore especialmente atraente. Quem tiver gatos vai levar alguns sustos, mas nada a que não se possa adaptar rapidamente.
 
Fonte: www.projeteja.com
Uma forma barata de fazer cobogós é assentar tijolos comuns com vãos entre si, pelo menos 2/3 do tamanho de cada tijolo, colocando os da fileira superior sobre esses vãos e assim sucessivamente. Parece óbvio demais? Experimente e surpreenda-se. Além do mais, cobogós não precisam ter cara de tijolo! Para isso servem as boas tintas e vernizes de alto brilho disponíveis no mercado. Um bom profissional de pintura consegue fazer até um enorme elemento de cimento parecer cerâmico.
Ainda não entendi como os fabricantes de bloquinhos de plástico ainda não se deram conta do quanto cobogós de encaixar seriam atraentes para as crianças! Seriam como legos estilosos, que obviamente teriam seu preço, devido à complexidade da produção, mas os petizes iriam amar!
 
Fonte: blogdatete.com

Apesar do preconceito que vitima essa criação legitimamente brasileira, por conta de outro preconceito que se tem contra moradores de subúrbio, que utilizavam em larga escala os cobogós mais baratos em suas fachadas, a indústria de elementos vazados conseguiu prosperar e hoje tem uma vasta e diversificada oferta de productos. Alguns chegam a aprecer porcelana, tamanho o refinamento de formas e vitrificação. As cores ainda são aquelas típicas dos anos dourados, oscilando entre tons pastéis e as cores vibrantes.

O mais absurdo desse preconceito é o facto de que elementos vazados, tanto mais quanto mais belos e elaborados, reduzem problemas e transtornos psicológicos como a ansiedade, a depressão e algumas fobias, como a de lugares fechados. Eles eliminam de cara a sensação de sufocamento. Quer mais? As crianças, novamente elas, têm sua curiosidade atiçada e brincam por mais tempo dentro de casa, às vistas dos pais. Mais? Experimente ver uma decoração natalina através de cobogós decorativos. Para quem ama o art déco, como eu, os cobogós acentuam bastante suas características estéticas, técnicas e históricas.
E é claro, meus leitores mais ecológicos já devem ter vislumbrado a possibilidade de jardins e hortas verticais, que cobogós estruturais, mais espessos e porosos, permitem com muita facilidade, dando ainda mais aquele ar de futurismo utópico dos anos dourados. Já os nerds de engenharia e mecânica não podem deixar de notar as propriedades acústicas que uma parece dupla com um corredor interno pode oferecer, algo muito útil para seu laboratório ou oficina não incomodar os vizinhos e dissipar o ar viciado, e ainda dar aquele toque de estilo e aconchego ao ambiente. Mais! Qualquer pedreiro experiente e minimamente bem informado pode produzir cobogós sob demanda na própria obra! Basta ter os moldes, que ele mesmo pode fazer com caixas comuns, tubos de PVC ou qualquer outro modelo de vazamento.
O cobogó é um elemento que nenhum vintagista, especialmente o brasileiro, pode deixar de lado, muito menos por conta de preconceitos de novos ricos deslumbrados. Apesar deles, o cobogó voltou a cair nas graças dos arquitetos, agora por conta da economia de energia e peso que eles permitem, e este argumento é indiferente aos modismos.

Apesar das imagens recentes, tudo aqui remete ao clássico e vanguardista experimentalismo dos anos de ouro. Quem conheceu casas e prédios modernos dos anos 1930 a 1970, vai reconhecer seus elementos aqui. Pois é, o Brasil já foi vanguarda em muitas áreas, inclusive na arquitetura.








Foi um sofrimento escolher entre tantas maravilhas feitas com cobogós, então escolhi alguns links para vocês mesmos pesquisarem os seus;

Referências:

Alguns fabricantes: